“A Mesa Posta”, de Rafael Bordallo Pinheiro, é um prato decorativo em faiança, realizado no final do século XIX, hoje associado ao universo museológico da obra de Bordallo e à sua dimensão crítica.
À primeira vista, estamos perante um objeto doméstico e reconhecível, o prato, a mesa, o ato de servir, algo quase confortável e familiar, mas essa proximidade é usada como armadilha, porque rapidamente se percebe que não se trata apenas de decoração. O prato deixa de ser suporte de alimento e passa a ser suporte de discurso, funciona como superfície narrativa, próxima do cartune político ou da ilustração satírica, um lugar onde se expõem excessos, vícios, desigualdades e hipocrisias da sociedade do seu tempo. Lembrar que, à época, esta não era a mesa do povo, a abundância de alimentos não fazia parte da realidade do povo português, muito pelo contrário, o povo vivia com dificuldades extremas. Há aqui uma inversão clara, aquilo que normalmente é silencioso e neutro — a louça — ganha voz, e aquilo que à mesa deveria ser celebração e convívio surge muitas vezes contaminado por crítica, ironia e desconforto.
Em “A Mesa Posta”, Bordallo usa o humor como ferramenta séria, transforma um objeto quotidiano num comentário social, mostrando que o que parece apenas decorativo pode carregar posição, intenção e conflito, a mesa, em todos os tempos, é um lugar também de reflexão e de tomada de decisões.
Para a exposição, propõe-se uma leitura atual da cerâmica como forma de expressão e de pensamento crítico. A partir do legado de Rafael Bordallo Pinheiro, foi proposto às alunas do ateliê criarem pratos que vão para além da função decorativa: comunicar ideias, abordar temas presentes na vida de hoje, como a desigualdade, a habitação, o conflito, o clima, o trabalho, a solidão, a saúde, o envelhecimento ou o poder. O prato, um objeto comum do quotidiano, transforma-se num suporte para contar uma história, marcar uma posição, levantar questões ou partilhar inquietações. Esta exposição convida à reflexão, à conversa e à troca de ideias à volta da mesa.
Assim, convida-se quem esteja interessado a participar nesta “mesa” aberta, em que a cerâmica se afirma como linguagem viva, plural e profundamente atual.
Prof.ª Ana Gonçalves