Falar Saúde n.º 143 - Sono na aula: de quem é a culpa?!

Prof.ª Isabel Cristina
19/10/2026

O professor explica, os olhos começam a pesar e os bocejos sucedem-se. Falta de interesse? Preguiça? Ou será que o nosso cérebro tem razões biológicas para querer dormir, precisamente quando mais precisamos de estar atentos?

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“O sono é a melhor meditação.”
(Dalai Lama)

 

A resposta não é tão simples como parece. O sono durante as aulas pode resultar de noites demasiado curtas, do funcionamento do relógio biológico ou de outros fatores que influenciam o estado de alerta. Compreender o que acontece no organismo é o primeiro passo para perceber que dormir bem não é um luxo: é uma necessidade biológica!


Bocejamos quando acordamos, quando estamos cansados, quando estamos aborrecidos e, por vezes, até quando estamos nervosos. É um comportamento involuntário, caracterizado pela abertura ampla da boca, por uma inspiração profunda e por uma expiração mais lenta. Apesar de ser tão comum, a ciência ainda não conhece, completamente, a sua função. Uma revisão científica publicada na revista “Neuroscience & Biobehavioral Reviews”, em 2010, analisou várias hipóteses sobre o bocejo e concluiu que muitas das explicações tradicionais continuam sem provas suficientes. Uma das associações mais consistentes é a que relaciona o bocejo com estados de sonolência e diminuição do estado de alerta. Portanto, bocejar pode ser um sinal de sono, mas não significa, necessariamente, que estejamos aborrecidos ou desinteressado)s.


Então, porque tens sono durante as aulas? A resposta envolve dois mecanismos biológicos fundamentais: a pressão do sono e o relógio biológico.


Desde que acordamos, o organismo acumula progressivamente a necessidade de sono. Uma substância chamada adenosina participa neste processo: a sua acumulação no cérebro está associada ao aumento da pressão do sono ao longo do período de vigília, ou seja, quanto mais tempo acordados, maior a necessidade de dormir. Durante a noite, o sono permite recuperar e regular diferentes funções do organismo. Se dormirmos menos do que precisamos, a pressão do sono pode tornar-se suficientemente elevada para provocar sonolência durante o dia. E aqui está um dos problemas: podemos estar sentados numa aula, a tentar acompanhar uma explicação importante, mas o nosso cérebro está a receber sinais biológicos de que precisa de descansar.


Por outro lado, o organismo possui um sistema interno de temporização, conhecido como relógio biológico, que regula os ritmos circadianos - ciclos de, aproximadamente, 24 horas que influenciam o sono, a temperatura corporal, a secreção hormonal e o estado de alerta. Durante a adolescência, ocorre uma alteração natural destes ritmos: a tendência para adormecer e acordar mais tarde. A libertação noturna de melatonina, uma hormona envolvida na regulação do sono, tende a ocorrer mais tarde do que nas crianças. Isto ajuda a explicar porque é que muitos adolescentes não sentem sono tão cedo à noite, mas têm dificuldade em acordar de manhã.


Esta situação passa a ser um problema quando este ritmo biológico entra em conflito com os horários escolares. Se um aluno se deita tarde e precisa de acordar cedo, pode não conseguir dormir o número de horas de que necessita. A Academia Americana de Medicina do Sono recomenda que os adolescentes dos 13 aos 18 anos durmam regularmente “entre 8 e 10 horas por noite”.


Dormir menos do que o necessário pode prejudicar a atenção, a memória, a regulação emocional e o desempenho escolar. Dormir não é simplesmente desligar o organismo. Durante o sono, o cérebro mantém uma intensa atividade, fundamental para diversos processos de recuperação e aprendizagem. O sono participa na consolidação da memória, ajudando a estabilizar e integrar informação adquirida durante o dia. Também contribui para a atenção, a capacidade de resolver problemas e a regulação das emoções, ou seja, quando dormimos pouco, podemos ter mais dificuldade em acompanhar uma explicação, memorizar conceitos, manter a concentração e controlar a irritabilidade. Por isso, passar mais horas a estudar à custa do sono nem sempre é uma boa estratégia, porque podemos ganhar tempo de estudo, mas perder parte das condições necessárias para aprender e recordar aquilo que estudámos.


Em suma, o cansaço durante as aulas não deve ser automaticamente interpretado como preguiça ou falta de interesse. Em alguns casos, pode ser um sinal de sono insuficiente.


O que podes fazer para estar mais desperto nas aulas? Não existe um truque que substitua o sono necessário. Contudo, alguns hábitos podem ajudar:

 

  • mantém horários regulares: tenta deitar-te e acordar a horas semelhantes, incluindo ao fim de semana;
  • dá prioridade ao sono: organiza o estudo de modo a não sacrificar sistematicamente as horas de descanso;
  • atenção aos ecrãs: evita que a utilização do telemóvel à noite adie a hora de dormir;
  • aproveita a luz natural e movimenta-te: a exposição à luz durante o dia e a atividade física regular ajudam a organizar os ritmos biológicos e a promover o bem-estar;
  • participa ativamente nas aulas: tomar notas, formular perguntas e relacionar conceitos pode ajudar a manter a atenção.



Se, mesmo dormindo o suficiente, sentires sonolência intensa e frequente durante o dia, fala com um adulto de confiança e procura aconselhamento de um profissional de saúde. A sonolência persistente pode ter várias causas e merece ser avaliada.


Da próxima vez que sentires sono numa aula, não concluas imediatamente que estás aborrecido, porque a matéria, ou o professor, não te cativam o suficiente. Talvez o teu cérebro esteja a pedir descanso, talvez o teu relógio biológico esteja a funcionar num horário diferente daquele que a escola exige ou, talvez, estejas simplesmente a responder ao bocejo de outra pessoa.

 

Prof.ª Isabel Cristina

 

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